Hoje, 6 de março de 2026, enquanto eu batia massa na obra da casa, a programação da Rádio Ouro Verde FM 105.5 interrompeu a música para declamar um poema antigo, frequentemente atribuído a Victor Hugo, embora a autoria seja contestada.
O texto parece, à primeira vista, um elogio à mulher.
Mas basta ouvir com atenção para perceber outra coisa.
Ele repete uma estrutura muito antiga:
homem como razão, mulher como emoção.
E isso aparece várias vezes:
“O homem é o cérebro; a mulher é o coração.”
“O homem é forte pela razão; a mulher invencível pelas lágrimas.”
“O homem pensa; a mulher sonha.”
Em cada comparação, a mensagem é a mesma:
o homem ocupa o lugar do pensamento, da ação, da estrutura.
A mulher é deslocada para o campo da emoção, do sacrifício e da devoção.
Isso não é apenas poesia inocente.
Isso é uma visão cultural muito específica, herdada de um tempo em que mulheres eram sistematicamente afastadas da educação, da ciência, da política e da tomada de decisão.
O problema não é o poema existir
Textos antigos existem.
Eles fazem parte da história.
O problema é como eles são usados hoje.
Quando um meio de comunicação decide transmitir esse tipo de conteúdo em 2026 — sem contexto, sem reflexão, sem qualquer mediação crítica — ele não está apenas recitando poesia.
Ele está reproduzindo uma visão de mundo.
E essa visão é clara:
homem como mente, mulher como emoção.
O contexto brasileiro torna isso ainda mais sério
O Brasil vive uma realidade dura.
Os dados de feminicídio continuam alarmantes, com centenas de mulheres assassinadas todos os anos simplesmente por serem mulheres. Esse cenário mostra que desigualdade de gênero não é um debate abstrato — ele tem consequências reais e violentas.
Nesse contexto, repetir narrativas culturais que colocam mulheres em posições inferiores ou passivas não é neutro.
Cultura molda percepção.
Percepção molda comportamento.
A responsabilidade editorial
Uma rádio não é apenas um canal técnico que transmite som.
Ela escolhe o que entra no ar.
Ela decide quais ideias circularão.
Por isso, a pergunta inevitável é:
o que significa, em 2026, escolher esse texto para ser recitado no rádio?
Não faltam poetas.
Não faltam textos que celebrem humanidade, inteligência, igualdade.
Mesmo assim, alguém selecionou um poema construído sobre a ideia de que:
- o homem pensa
- a mulher sente
- o homem age
- a mulher sofre.
Isso não é apenas uma curiosidade literária.
É uma escolha editorial.
Um ponto de reflexão
Se esse poema fosse escrito hoje e enviado para uma redação de rádio, provavelmente seria questionado.
Mas quando ele aparece revestido de “tradição” ou “clássico”, muitas vezes passa sem crítica.
Talvez seja justamente aí que esteja o problema.
Porque tradição, quando não é examinada, pode se transformar em repetição automática de ideias ultrapassadas.
A poesia pode emocionar.
Mas também pode carregar visões de mundo.
E quando um meio de comunicação decide colocar uma visão no ar, ele participa da construção da cultura de seu tempo.
Em um país que ainda luta contra a violência de gênero, a pergunta que fica é simples:
faz sentido continuar transmitindo esse tipo de mensagem como se fosse apenas uma bela poesia?
Ou já passou da hora de reconhecer que algumas tradições merecem, no mínimo, ser questionadas antes de serem repetidas?
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