Inspirado em: Xiquexique, de José Miguel Wisnik e Tom Zé
Há músicas que começam com uma espécie de riso.
Mas não é riso de alegria.
É aquele som estranho, entre gargalhada e suspiro — como quem ri porque não sabe mais o que fazer.
Xiquexique, de José Miguel Wisnik e Tom Zé, começa assim.
Na primeira escuta, pode parecer delírio.
Mas em algum lugar do fundo — ou do sertão — ela se parece com um retrato.
Um daqueles que não se penduram na parede.
Retrato do que só quem já viveu conhece.
Do que se esconde no cotidiano das esquinas, nas mãos calejadas, nos olhos que já viram demais.
Ou talvez…
nos olhos de quem viu o que ninguém mais viu.
“Eu vi o cego lendo a corda da viola…”
Vê onde ninguém vê.
Aposta quando ninguém acredita.
Cria esperança com sobras e dívidas.
Tem fé na réplica da réplica da Bíblia:
no próximo pedido, no próximo mês, no próximo Natal.
Mas do outro lado —
cego contra cego no duelo do sertão.
Briga por preço, disputa no escuro,
enquanto alguém grande assiste, lucra e nunca sangra.
O cordeiro de Deus aparece num ovo vazio.
A encomenda prometida vira margem apertada.
O banco aprova mais um empréstimo.
E a bala matadeira não faz barulho:
vem na forma de boletos, sufoco, cansaço.
No fim, vê o cão — e nos olhos, era ele.
A morte não chega com sirene.
Ela escorre silenciosa pelos rodapés das lojas,
pelas vitrines apagadas,
pelas promessas de reinvenção que já não empolgam.
Não há estardalhaço.
Só o som de uma cidade que, aos poucos, perde sua tessitura.
Cada loja que fecha apaga um ponto de luz.
Cada oficina que cessa é uma fresta a menos na arquitetura urbana.
Cada nome que some do letreiro é uma voz a menos no coral da cidade.
“Eu vi a luz da luz do preto dos seus olhos
Quando o sertão num mar de flor esfloresceu…”
Mas a flor ainda insiste em nascer no sertão.
E às vezes, quando o olhar descansa,
é possível ver o triângulo engolindo faísca.
Ou ouvir, lá longe, um cego afinando a corda da viola
de um instrumento que ainda resiste a tocar.
Nas cidades, a repetição muda de nome, mas o enredo é familiar.
Um comércio de décadas fecha discretamente.
Uma porta de aço permanece abaixada por tempo demais.
A ausência passa a fazer parte da paisagem.
A substituição é quase imperceptível.
Sai a marcenaria de bairro. Entra uma loja de entrega rápida.
Sai o ateliê com peças feitas à mão. Entra a vitrine de produtos descartáveis.
Sai a história. Entra o volume.
A arquitetura não grita. Mas muda.
As fachadas perdem camadas. As calçadas perdem presença.
E o bairro começa a esquecer quem ele era.
Ainda existem lugares onde algo resiste?
Onde a repetição é interrompida — nem que seja por um instante.
A cidade, quando quer, sabe sustentar o que é pequeno.
Mas precisa lembrar que existe beleza no que não escala, no que não se reproduz, no que não promete multiplicação infinita.
Nem todo negócio precisa crescer.
Nem toda ideia precisa vencer.
Nem toda flor precisa durar.
Algumas existem só para lembrar que ainda há vida.
Mesmo no sertão.
Mesmo no escuro.
Mesmo quando tudo parece ter sido engolido pela repetição.
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